O último sonho
A essência .
João olhou pela janela ao ouvir o barulho rascante na rua. Parecia uma máquina estranha, um veículo preguiçoso a se arrastar pelo asfalto quente. Olhou por um instante e olhou novamente.
Era ao mesmo tempo uma cena bela e perturbadora. Um jovem puxava uma espécie de carroça com dois varais, carregada de alumínios, ferros e cacarecos velhos. Fixou o olhar e a imagem parecia perpetuar-se em suas retinas: há muito não via cena tão impressionante. Não era só a semi nudez do rapaz que o aprisionou, mas sim o conjunto homem e trabalho.
A bermuda larga escorregava abaixo da cintura deixando à mostra as nádegas mal cobertas pela cueca cinzenta. A carroça pesada, a transbordar de coisas rejeitadas, enferrujadas, sujas , descartadas. Os braços fortes, retesados, as mãos agarradas aos dois varais e os movimentos ondulantes no esforço de mover o conjunto todo. Mas foram os olhos dele que , por fim o impressionaram mais. Não se fixavam em nada e pareciam procurar algo no horizonte. Olhos de alguém enlouquecido, um drogado, talvez.
Não parecia perturbar-lhe o fato da bermuda larga a escorregar deixando quase a mostra uma parte da bunda e dos pentelhos. Todo o corpo forte parecia obedecer apenas ao desejo de prosseguir sem rumo para a frente , sempre. Mas estava cansado como todo animal que exige demais de si mesmo.
Viu-o descansar um pouco em frente a seu portão, tentando subir bermuda e cuecas que imediatamente desabaram novamente e a pele dele era
de um bronzeado impecável , sem marcas, os pentelhos cor de cobre . Afundava o boné sobre os cabelos e as bermudas caindo eternamente, sem o cinto, larga.
Finalmente sua cabeça voltou-se para a direção onde João, paralisado o observava. Olhou-o duramente como se estivesse acostumado a ser tratado como um delinqüente e indagou :
-E aí, véio…. um copo d´agua ….tem?.
João saiu de seu estado de êxtase e abriu o portão. O rapaz empurrou a carroça para fora da rua , para a calçada, e entrou. João sentiu as mãos trêmulas… o medo quase travava seus movimentos e palavras. E, no entanto, queria tanto ele por perto. Levou-o para os fundos da casa , através do corredor lateral. A bermuda larga caindo sempre, o formato da bunda , firme , pequena , redonda , dourada.
João viu sobre a mesa da cozinha uma faca suja e tratou de escondê-la dentro da gaveta. Que besteira… Ele só queria água… Só isso…
-Tem ferro velho? Eu levo, se tiver…. alumínio, panela velha…. tem?
João meneou a cabeça, os olhos fixos nos pentelhos cor de cobre que começavam no umbigo e continuavam dentro da cueca cinzenta. Com certeza usava drogas. Quem sabe usasse crack…uma pena…tão forte…tão bonito…tanta vida…
-Tem nada pra levar, não? Vou indo então…
Mas quando devolveu o copo vazio suas mãos se tocaram e João segurou a mão dele num impulso não controlado. Quase falou : “ Fique …” e , no entanto, a palavra não saiu. Ficou engasgada na garganta.
Ele percebeu o jogo da mão e deixou que João a segurasse por um instante. Olhou-o perscrutando e, se João esperava um sorriso maroto ou cínico, não o encontrou. Ao contrário, sentiu a mão grande e suada pousando com suavidade inesperada em seu ombro,
puxando-o de encontro ao peito desnudo, o rosto muito próximo,quase encostado em seu pescoço e o sussurro:
-Eu sei…eu sei…, véio….
E ao perceber o quanto João estremecia fechado dentro de seus braços, completou:
-Pode beijar, se quiser… mas não na boca…no rosto…
E permaneceu imóvel, impassível, enquanto os lábios de João roçavam a pele do rosto, os pêlos
da barba mal feita.
João pensou que deveria ter guardado, em algum lugar, um cinto que não usava mais… que poderia servir para lhe segurar a bermuda. Não queria que outros vislumbrassem a sua quase nudez ,numa espécie de ciúme insensato..
Mas ele já se afastava, puxava a carroça para o meio da rua e os músculos das pernas se enrijeciam no esforço da tração.
João permaneceu olhando-o, até que desaparecesse na esquina.
Guardou – o pelo resto de seus dias, pelo menos, a essência dele. O beijo no rosto.
